domingo, 19 de dezembro de 2010

Ser

Fina penumbra oculta o que a sociedade não fita,
Pois se fita o rubro entardecer por trás dos olhos,
nada vê a não ser aquilo que pensa ser,
nada mais sendo que alvo daquilo que poderia ser,
não podendo nem mesmo ser o que pretendia ser.

Olhos que não fitam presos a mentes que não pensam,
E sendo pensadas como por assim dizer, pensam pensar.
Ambição essa teria de prevalecer, mas aquele que nada vê,
Parece entender, por trás da penumbra, o que todos pensam ver,
As cores vivas lhe trazem caminhos alternados,
por entre escadas que a nada levam, que ao inferno guiam,
ou quem sabe elevam lhe ao apogeu do pensamento.

Enforcados na linha tênue da onisciência embriagam-se,
Perdidos em sonhos solitários, Tentam em vão enxergar,
No entanto chegar a levitar por entre estradas e rios,
Campos vazios, cheios de sentimento que tudo ali alimentam,
O fim mais esperado por aqueles que nada esperam,
Pois compreenderam tudo como o veneno da víbora,
E necrosam o sistema que fraco desatina em golpes baixos,
Furando lhes as vistas, com o punhal que introduzido em sua alma
Faz seu sangrar o levar mais perto do dia que fenecer seu afazer será.

Saudosos Hippies

Vagarosa é a lua que por entre a penumbra expõe a realidade da noite fria
Que como em passe um de mágica nos purifica e nos torna escravos do instinto,
A mente anseia pela insanidade animal que nos trouxe onde estamos,
A fome da carne que nos fortaleceu entre os outros tantos de nosso gênero,
O luar acorda o lobo que perdido na noite começa a uivar esperando e observando,
Cigarros nas calçadas, gente de todos os tipos vagando e meu caminho vai em direção a eles,
Confabulamos, e nos perdemos em devaneios de uma época que não vivemos
Movidos pelo saudosismo dos tempos de nosso pais, em que a música mexia com as pessoas,
A música levava-os a algo a beira do paraíso em um culto a um estilo de vida hoje extinto.

Vida Curta e Muda

Tantos caminhos se abrem, tantos se fecham,
Tantos cruzei e a vida é curta,
Uma vida é única, porém múltipla,
São tantas as vidas que se pode viver,
Tendo uma só vida, que às vezes sinto,
Nunca ter vivido intensamente, nenhuma.

E nesse vazio perpetua minha agonia,
De maneira intensa e insuportável,
A arma busca minha fronte,
O dedo almeja o doce toque
Do gatilho que sutilmente oculta a dor.

Não, não posso ceder, mas a tentação
Me puxa, não há saída desse abismo,
A vida emerge da sombra, a sombra se desfaz,
A luz se refaz, e nesse instante tudo volta a brilhar,
Não há mais porque penar.

Razão

Era como se a pupila tivesse escorrido pela Iris,
Tingindo assim de uma negritude incomensurável os olhos,
Olhos negros tomados pela curiosidade sagaz,
De um caminhante solitário que pelas tardes quentes,
Espanta seus demônios observando as peculiaridades da mortalidade,
Quão vermelho o sangue flui na intensidade de uma pequena nascente,
É rápido e se espalha transformando esse quadro em uma espécie de carnificina,
Revisitando todas as barbarias cometidas pela humanidade,
Movido pelo único desejo de ver o sangue jorrar,
A cabeça rolar e num último segundo o restante fitar,
E as gargalhadas que inundam esse antro de devassidão,
Torna-se afável até quem sabe amável nas entranhas da podridão,
Da vida que se perde como se indigna fosse,
Da morte que separa os fracos dos fortes,
A lei natural que regi o mundo,
A loucura é a única razão.

Cegueira

Todos esses estímulos me nublam a percepção,
A confusão é inerente, palpável, posso ver,
Sinto ela escorrendo pelo corpo quente,
Aromas esquecidos desenterram lembranças ignóbeis,
Dias passados em meio a paraísos ébrios,
Porém que aos olhos céticos nada mais eram
Que os últimos suspiros de um decadente poeta,
Um poeta preso nas estranhas da selva de concreto,
Entre seres frágeis que se escondiam da vida,
Acreditando piamente que tal fuga não era fuga,
Não indigna nem tampouco desonrosa,
Essa fuga era a vida, mas a liberdade,
A mais suja das falácias,
Jamais em minha vida tive noticias,
De alguém que em sua essência fosse livre,
Fizesse tudo sem se prender a nada,
Fosse como o vento sempre inquieto,
Sempre procurando a direção,
Ora direção do mar, ora direção da terra,
Nada disso é balela, sei que como numa novela,
O drama é fundamentalmente importante,
Para ater assim por acaso o cognitivo,
De um pobre coitado que cego jaz,
Em estado de inércia, para que pensar,
Se pode aceitar, não acha errado a democracia,
É tudo uma questão de aceitar a superioridade alheia,
Sem ao menos uma previa informação, nem distorção,
Nada, absoluto nada a reinar e guiar,
Para a beira do abismo, o caminho até o topo é longo
Estamos enterrados com toda a America latina,
E com o próprio Borges, que decretou a morte,
Da inexistente America latina.

Fatigado e Fugido

Fiquei divagando, sentado em um banco qualquer
Olhando fixamente para o livro enquanto as letras dançavam suavemente
Tudo isso me levou a deixar aquele lugar, tentar fugir.

Fugir desse mundo insensato onde tu ganhas o que não mereces
E não o que merece, fui então até o bistrô mais próximo,
Adquiri uma garrafa de um bom vinho.

Ao som da bossa nova tento afogar as lagrimas,
Que surgem casualmente entre as lembranças de dias mais alegres,
O vazio que se tornou minha alma corrompe meus pensamentos
E me arremessa num mundo de tristeza, onde então descobri
Que nada posso fazer, que nada serei, e que tudo que penso parece bobagem.

Olhos alheios fitam meus dias despreocupados com ódio,
E meus dias de angustia com prazer
Nesse silencio desespero que se tornou minha existência
Ansiando pela morte a cada volta que dou

Entro no meu carro e não sei se voltarei a sair dele com vida
Todas as vezes que fito os pares de luzes que vem em minha direção na estrada
Sinto vontade de ir ao encontro de seu doce deleito
Que seria então o fim do sofrimento
Mas nem disso sou capaz, eu sou fraco.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Carnificina

Maquinas pulsam seu vapor nojento,
Fumaça tapa meus olhos e mancha meu rosto,
Esse som não me deixa só,
O piso molhado coberto de musgo,
O cheiro de podridão que invade minhas narinas,
A ânsia faz as tripas chegarem a minha boca,
Vomito sangue, vomito tripas, vomito minha alma,
Perco meu corpo, minha cabeça encontra o chão,
O sangue flui como de uma nascente,
Da fenda que se abriu em minha fronte,
As rachaduras revelam meus miolos,
Mistura estranha essa do branco com o vermelho,
O vento leva meu convite aos abutres,
Que aos poucos se aproximam para me devorar,
Estou apodrecendo, seus bicos rasgam a pele do meu crânio,
De meu olho furado escorre um liquido preto como o próprio breu,
Viscoso que mancha o bico de um abutre,
Respingando por entre meu ventre aberto,
Parcialmente devorada, em que as tripas já se espalharam,
Partes do meu corpo cobrem o chão,
Um cachorro sacia sua sede com meu sangue,
Um gato brinca inocentemente e mordisca um pouco
O que um dia foi minha orelha, brincando como um novelo,
Esse gato preto, coberto de sangue se lambuza com isso tudo,
A chuva leva o que sobrou de mim à terra,
Que me traga com sua fome onívora,
E meus ossos são carregados por lobos,
De mim nada resta a não ser uma solitária memória,
Que de supetão invade tua mente, e te leva à culpa eterna,
De tu que fizeste isso, me transformou em nada,
Mas minha lembrança é eterna e ao inferno te levarei então,
As chamas te tragaram e tua carne será devorada,
Do mesmo jeito que a minha foi, quando me furaste com um punhal,
O mesmo que te dei, o mesmo que me levou a encontrá-lo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Amantes

E se não houver ninguém para preencher minha alma,
No eterno desalento fenecerei,
Enclausurado nesse ébrio paraíso
Proveniente do deleito dos fracos e incapazes,
Que se afogam num mar vermelho para livrar-se da tristeza,
Essa que me toma como a hera, que sacia sua sede com minha dignidade.
As buscas infrutíferas de caricias que me recordem as tuas,
De lábios que dancem com os meus como os seus dançaram.
Ver o sol se pondo desfrutando o entardecer com mãos entrelaçadas,
Sorrisos singelos e nosso riso ingênuo,
E sob o luar deitado sob a relva ao teu lado adormecer,
A beira daquele mesmo lago em que nos conhecemos,
O mesmo em que a felicidade cobriu-nos com seu tênue véu,
E nos fez crer mesmo que só por um instante
A vida não era miserável e sim doce,
As estrelas a brilhar enquanto o luar nossas almas lavava,
Dois amantes abraçados, perdidos em devaneios,
Duas partes da mesma peça unidas pelo acaso.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Frenesi Esquecido

Nas profundezas da floresta de cristal
As almas chegavam alvissareiras,
E em seu frenesi chegavam a embalar antigas cantigas
De tempos esquecidos, quando a vida não era sombria e taciturna.
Uma época de prazeres indizíveis em atos libidinosos,
Doce sopro quente das flores a inflamar o ambiente
De calados sonhadores, que se sentam confortavelmente
Em suas esteiras, desfrutando o óleo de coco.
O acalanto dos braços de amantes,
A textura aveludada da bebida que lhes alimentava,
Extinguia o ego e os fazia ascender aos deuses.